O Psicólogo na Escola

O papel do psicólogo na escola é muito mais complexo do que se poderia julgar inicialmente. Apesar da possibilidade de diferentes práticas ou funcionalidades, o objectivo primordial mantém-se actual - o desenvolvimento global (do bebé / da criança / do pré-adolescente / e do adolescente) e da individualidade que cada um carrega.
O papel do psicólogo na escola é muito mais complexo do que se poderia julgar inicialmente. Em primeiro lugar, o psicólogo deve estar ciente que não pode transformar o seu gabinete num colossal consultório, aliás, este será mesmo um espaço ao qual não deve limitar a sua intervenção. O trabalho a desenvolver deve funcionar numa lógica de rede, assente no estabelecimento de parcerias estratégicas. De um modo geral, também será importante ajudar os pais, que não possuem orientação suficiente para lidar com determinada situação e os educadores sobrecarregados, chamados a intervir a um nível emocional, quando se deveriam focar em situações didácticas, onde, cada vez mais, prevalecesse uma pedagogia diferenciada, consonante com a heterogeneidade actual das turmas. Por fim, é fundamental apostar num clima de não-violência, onde prevaleça um ambiente tolerante e exigente, onde a pessoa em desenvolvimento desempenha um papel central.
A escola é uma realidade que em muito ultrapassa a realidade física de que nos lembramos quando dela ouvimos falar. Dentro do conceito “escola” cabem muitas definições, diversos contextos, bastantes perspectivas e expectativas e, evidentemente, todas as pessoas que se relacionam entre si directa ou indirectamente.
Apesar da possibilidade de diferentes práticas ou funcionalidades, o objectivo primordial mantém-se actual - o desenvolvimento global (do bebé / da criança / do pré-adolescente / e do adolescente) e da individualidade que cada um carrega. O psicólogo não foge a essa premissa, emergindo como mais um contributo nesse sentido, que, naturalmente, não se limita a agir nos casos limites, como uma última instância a que se recorre em caso de desespero.
O acento tónico na prevenção em detrimento da intervenção que se limita a remediar, não significa que uma interferência precoce seja sinónimo de resolução absoluta da problemática em causa, ainda mais se associado a essa prática não surgir um trabalho cooperado, onde todos os actores educativos estejam efectivamente implicados. Ninguém se deve demitir.
O psicólogo na escola pode desempenhar muitas funções, mas ilusionismo não será com certeza uma delas. Não há soluções mágicas que ponham termo às dificuldades inerentes a determinado caso. Há sim a possibilidade do trabalho, da avaliação e do diagnóstico, da intervenção, de mais avaliação e mais intervenção, da observação e da interacção, das relações, da concertação de esforços, da interpretação e da discussão, do burilar modelos conceptuais e respectiva adequação, da investigação, da constatação do êxito e do fracasso, das dúvidas e da reflexão. Há enfim, a evidência de um trabalho perene, científico e claro, que acompanha o próprio desenvolvimento e que procura constantemente compreender, descortinar - não oferecer ou impingir - um significado a um comportamento aparentemente órfão de sentido.
A actuação do psicólogo deve, assim, centrar-se essencialmente em cinco áreas:
(1) Diagnóstico e Prevenção;
(2) Apoio Psicopedagógico;
(3) Orientação Escolar e Profissional;
(4) Acompanhamento/Formação;
(5) Envolvimento contexto-cultural.
(1) Diagnóstico e Prevenção: nesta valência o papel do psicólogo passa pela observação e sinalização de casos, cuja evolução pode justificar um encaminhamento especializado, exterior ou não à instituição, trabalho que deve ser articulado com professores, educadores de infância e pais. Um dos objectivos deste campo de acção centra-se no fomento da intervenção precoce nos problemas de saúde mental. Este trabalho passa por uma acção de diagnóstico que deve ser o mais abrangente possível e que, além de visar detectar possíveis indícios perturbadores do desenvolvimento da criança, também permite caracterizar a população escolar;
(2) Apoio psico-pedagógico: um dos domínios mais visíveis do trabalho psicológico passa pelo acompanhamento e apoio dos alunos, professores e familiares dos alunos ao nível psicológico/pedagógico, em parceria com outros técnicos da escola (professores de ensino regular, professores de ensino especial, terapeutas da fala e outros que possam existir). O psicólogo procura diagnosticar a problemática sinalizada, servindo a avaliação e a observação efectuadas para definir a intervenção a realizar, envolvendo a família, os professores e demais intervenientes (internos ou externos à escola) que considere importantes;
(3) Orientação escolar e profissional: nesta área o psicólogo procura implementar na escola um programa de orientação vocacional, em particular dirigido aos alunos do 9º ano de escolaridade, correspondente a um momento crucial, onde os jovens deverão fazer escolhas para os anos seguintes. Porém, este trabalho não deixa de considerar toda a informação reunida durante o percurso do aluno, dado que a sua história, experiência, expectativas e vivências assumem um peso importante nas decisões a tomar.
Este programa deverá ser desenvolvido ao longo do ano lectivo, em sessões desenvolvidas com pequenos grupos, de forma a dotar os jovens das “ferramentas” necessárias a uma resolução. A realização dos testes psicológicos surge como mais um contributo para o esclarecimento dos jovens, uma vez que importa promover a consciencialização dos elementos importantes a ponderar na decisão a tomar, nomeadamente: Conhecer-se (interesses e aptidões), Conhecer (quais as possibilidades opcionais), e Decidir (tendo em conta o seu autoconhecimento e o conhecimento sobre o que podem optar);
(4) Acompanhamento / Formação: nesta matéria, o psicólogo deverá colaborar no acompanhamento das relações interpessoais que se geram na Comunidade Educativa, em particular as que são geradoras de conflitos e de problemas comportamentais, ajudando a mediar estas relações bem como a gerir as situações problemáticas que decorrem das mesmas. Tendo em conta a prevenção e a informação deverá sempre que possível proporcionar momentos de formação para os diferentes membros que compõem a Comunidade Educativa (professores, alunos, pais - encarregados de educação, auxiliares de acção educativa e demais funcionários);
(5) Envolvimento contexto-cultural: na escola, outra das possibilidades interventivas do psicólogo passa pelo estabelecimento de parcerias com a comunidade envolvente, procurando o reforço do enraizamento contexto-cultural diversificado e acolhedor, que possa catapultar o desenvolvimento individual da criança, ao mesmo tempo que fomenta a desejada materialização da expansão do conceito “escola”, que está muito para lá das suas delimitações físicas.
Assim sendo, as áreas de intervenção do psicólogo são plurais e passam pelas relações interpessoais, das quais não existe trabalho que não dependa. Apesar da operacionalização desta diversidade pecar sempre por redutora, o esclarecimento possível não deixa de ser preferível.
Seja qual for a instituição, nem sempre as relações pessoais são as mais desejadas. E seria tão utópico pensar o contrário, como seria julgar que alguma vez tal aspecto ficaria de vez totalmente resolvido, atingindo um patamar de perfeição onde não fosse possível aos problemas de comunicação alimentarem a violência interpessoal. Contudo a redução desta entropia comunicacional é um trabalho que interessa a todos e que a todos pertence e que, evidentemente, não exclui uma abordagem psicológica.