A agressividade e o desenvolvimento

Crescer não é apenas um produto de fatores favoráveis, positivos e fáceis. Crescer implica dificuldades e uma boa dose de assustadora distância.
Na década de 50, no século passado, Winnicott definia o crescimento como um ato agressivo. Não custa muito a entender porquê, uma vez que o crescer não é apenas um produto de fatores favoráveis, positivos e fáceis. Crescer implica dificuldades, uma boa dose de assustadora distância, que evidentemente não pactua com desinteresse, mas que obriga a um desprendimento, essencial para uma construção de autonomia, que nem sempre é totalmente desejada.
Esta relevância basta à agressividade. A sua manifestação está desde já justificada, uma vez que a sua existência adquire um profundo valor adaptativo, exposto nas teses biológica e etológica. De acordo com estas perspetivas, a agressividade ajuda mesmo a perpetuar a nossa espécie.
Assumida a importância da agressividade no desenvolvimento humano, importa compreender a vantagem da aprendizagem do seu autocontrolo, para que não resvale para uma violência iminentemente destrutiva.
Essa aprendizagem começa cedo e relaciona-se com as interações que estabelecemos desde o princípio. O controlo da agressividade liga-se à qualidade da vinculação estabelecida, à introdução do não, à imposição firme de limites, às manifestações de afetos, às relações simétricas estabelecidas com os pares e, entre outros e importantes aspetos, aos comportamentos agonísticos que se manifestam desde tenra idade em contexto de creche e de jardim-de-infância.
A agressividade manifesta tende a deixar os pais, em particular, e os educadores, de modo geral, mais apreensivos. E tende a revelar-se maioritariamente nos rapazes, ao contrário da agressividade relacional, mais popular entre o sexo feminino.
Porém, há uma fase, mais caraterística do jardim-de-infância e do pré-escolar, onde a visibilidade da agressividade não deve ser tão preocupante, uma vez que pode corresponder a um período onde a criança aprende a lidar com as emoções negativas, com as frustrações e com a própria agressividade associada às interações. Nesta etapa, a exteriorização do comportamento agressivo corresponde a uma aprendizagem do controlo da agressividade. Progressivamente, este controlo vai adquirindo métodos mais eficazes, que passam pela maior capacidade interpretativa, pelo uso da linguagem e, evidentemente, por uma superior capacidade de descentração, ou seja, de considerar a perspetiva do outro.
O autocontrolo da agressividade, não significa que esta se tenha esfumado, traduz antes uma construção de mecanismos por parte da criança, que a ajudam a regular os impulsos (mais destrutivos) e que a auxiliam a moderar e a mediar a intensidade de uma possível reação (violenta).
Esta consciência, por parte dos educadores, não deve inviabilizar a necessária correção do comportamento em causa, que evidentemente não deve ser reforçado, mas deve ajudar a compreender a sua natureza e função. O declínio da agressividade depende não apenas do desenvolvimento cognitivo, mas também da pressão exercida pelos adultos.
A distinção entre o ato que se repudia e a própria criança também é importante, tendo ainda presente que o afeto é imprescindível a uma gestão ponderada da agressividade.
O próprio adulto também deve compreender que a força vem do exemplo e não da palavra. Os modelos mais significativos, copiados desde cedo, assumem um papel preponderante na tomada de decisão numa situação geradora de confronto e que ameaça provocar algum tipo de frustração na criança. Neste sentido, podemos mesmo questionar: até que ponto o valor da agressão é absorvido pela criança como um valor adequado?
A relação entre a agressividade e o desenvolvimento também se pauta pelo paralelismo estabelecido entre a crescente regulação da agressividade e um maior desenvolvimento moral, um maior conceito de justiça, uma maior competência social, e um maior desenvolvimento social e cognitivo.
Nesta sessão, também falámos da importância das relações de amizade e o impacte negativo da agressividade no desenvolvimento da criança e do adolescente. As relações de amizade parecem funcionar como um fator protetor. Contudo, registam-se situações onde a própria amizade emerge como um espaço de violência, que apesar de não ser física, acarreta consequências negativas bastante profundas.
A exteriorização dos maus sentimentos pode funcionar como um antidepressivo ou como um ansiolítico. Todavia, essa exteriorização não deve ser feita de modo brusco, deve ser temperada, tratada, para que realmente se possa afirmar de modo construtivo.
Abordámos, ainda, a própria estabilidade do comportamento violento que, se considerarmos os estudos referidos (e.g. Eron, 1987), tende a perpetuar-se num ciclo, cuja quebra se afigura bastante difícil.
(Adaptação da conferência “A Agressividade e o Desenvolvimento”
apresentada pelo Dr. Mauro Pimenta, Psicólogo Educacional,
inserida no ciclo “Os pais na Escola” – 08/11/2012)