A importância do brincar

A importância do brincar

Quando é que o brincar livremente se tornou a actividade mais rara na vida das crianças?

 

70% das crianças portuguesas passam menos tempo ao ar livre do que os 60 minutos que o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos recomenda para os reclusos.

10,8% é o tempo médio que as crianças de Creches e Jardins-de-Infância passam no exterior durante os 4 meses de Inverno. Nos últimos 20 anos as crianças de todo o mundo perderam, em média, cerca de 8 horas de brincadeira por semana.

Quando é que o brincar livremente se tornou a actividade mais rara na vida das crianças?

É através do brincar que se inicia o pensamento humano e é também no brincar que a criança se permite contemplar, projectar e construir (Chateau, 1987).

Brincar é mesmo uma coisa muito séria. Interfere com a construção global da criança, intromete-se no desenvolvimento cognitivo, emocional, social, motor, moral e na própria linguagem. O jogo social promove a auto-regulação, a abstracção, a criatividade, a possibilidade de sistematizar, a resolução de conflitos, a capacidade de cooperação e a empatia.

Herbert Spencer, em 1878 elaborou a teoria do «excesso de energia», onde defendia que a criança brincava para não se tornar demasiado agitada. A brincadeira surgia como um escape, onde a criança se podia livrar do excesso de energia entretanto acumulada. De modo contrário George Patrick, em 1916, defendeu que era através do brincar que a criança “carregava baterias”, ou seja, era lá, ao brincar que cada criança podia ir buscar a energia de que entretanto se tinha esvaziado.

span style="font-size: small;">Karl Groos foi o responsável pela teoria do pré-exercício. No brincar, a criança pode aproximar-se da realidade sem correr tantos riscos, pode errar sem sofrer as consequências que sofreria se tudo não passasse de uma brincadeira. Vai treinando até coisas que não percebe…para estar preparada quando chegar o dia. No brincar apropria-se do real, altera-o, interpreta-o, afasta-se e aproxima-se.    

span style="font-size: small;">Para Sigmund Freud o brincar misturava-se com o desenvolvimento emocional, era na brincadeira que a criança resolvia frustrações, que se equilibrava. Era de lá que regressava estabilizada, resolvia no brincar tudo o que a perturbava. Inventava uma solução ou como dizem os brasileiros: “dava um jeito”.

Jean Piaget olhava o brincar e via desenvolvimento cognitivo. Via curiosidade, criatividade, assimilação, inquietação, acomodação e, por fim, constatava a chegada a equilíbrios majorantes.

Todos tinham razão.

O não brincar associa-se a crianças mais obesas, mais sentadas, com menos competências sociais e relacionais, mais isoladas e individualistas. Promove uma pandemia de crianças cansadas e stressadas, cujo destino é cada vez mais a medicação.

A ideia do “desbrincar”, do abandono do brincar pode mascarar-se de muitas formas, podendo assumir objectivos tentadores e cravejados de atributos justificáveis. Mas vêm acompanhados de um preço demasiado alto, que a criança até se pode esforçar por pagar. Mas é muito caro. Às vezes tem o preço da felicidade. Talvez por isso a própria selecção natural não tenha eliminado o brincar.

As crianças são dotadas para brincar, é o seu estado natural. Precisam de ser perseguidas, de perseguir, lutar, correr, esconder-se e ser descobertas, inventar. Pelo contrário, a sociedade faz um esforço para as ter quietas e em silêncio.

O espaço e o tempo de recreio devem ser encarados como uma condição necessária às aprendizagens formais realizadas em contexto de sala de aula. Uma criança que não brinca não aprende a concentrar-se.

E atenção, não vale fazer batota, o tempo consumido pelas crianças entre ipads, telemóveis e afins não conta como brincar. Isso não passa de entretenimento.

Foi isto que tratámos no passado dia 12 de novembro na terceira conferência do IX Ciclo “Os pais na Escola”, com o título: A utilidade do saber inútil ou a importância do brincar.

 

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